Maternidade, Família, Estado
Nadine Lefaucheuer, num trabalho intitulado,”Maternidade, Família, Estado”, aborda três grandes temas: a família, a maternidade, Welfare, trabalho de reprodução e a sua relação com as mulheres.
A FAMÍLIA NA TORMENTA
Relacionado com a família, Nadine Lefaucheur fala da maternidade, nupcialidade, uniões de facto, divórcios e novas apresentações de famílias: famílias de três elementos, de habitat individual e de monoparentalidade.
A autora define família como o “lugar habitual da reprodução biológica das populações humanas, lugar privilegiado da sua reprodução social, a família é também o lugar onde se entrecruzam as relações sociais fundadas na diferença dos sexos e nas relações de filiação, de aliança e de coabitação.” Pág. 478
Segundo Nadine Lefaucheur, a
família, durante os anos sessenta, nos países desenvolvidos, é afectada pelas
transformações demográficas, tecnológicas e económicas que estão ligadas ao
aparecimento de um novo regime de produção. Este regime, segundo a autora,
interfere nas bases materiais e sociais das relações entre os sexos e, segundo
esta, desvaloriza a família como lugar de “destinação”. Pág. 478
Fecundidade
Antes da segunda Guerra Mundial,
e mais visivelmente depois da mesma, em todos os países ocidentais, as taxas de
natalidade vinham a registar uma subida em relação ao final do séc. XIX.
Nos anos sessenta o chamado
Baby-Boom tinha terminado. Os diversos indicadores de natalidade no ocidente em
meados dos anos sessenta começaram a registar descidas vertiginosas, fazendo
com que a maior parte dos países desenvolvidos estivesse abaixo do limiar de
substituição da população.
Índice de Conjugalidade e fecundidade
Actualmente, e tendo em conta as
condições de mortalidade nos países desenvolvidos, o índice conjuntural de
fecundidade deve ser próximo de 2,1 (filhos por mulher) para que a reprodução
da população seja assegurada de modo estável sem recurso à imigração.
Segundo números apresentados pela
autora, todo o mundo ocidental registou caídas preocupantes de fecundidade
durante os meados dos anos sessenta e até finais dos anos oitenta.
Como exemplo, temos os Estados
Unidos que, em 1957, tinha uma taxa de 3,7 e, em 1975, 1,8. O Norte da Europa,
em 1964, registava uma taxa de 2.5 e mesmo de 3, passando a apresentar, em
1975, uma taxa abaixo de 2.
No final da década de oitenta
registou-se em alguns países europeus uma ligeira subida, mas que, segundo a
autora, se deve ao facto de ter subido a idade média das mulheres ao nascimento
dos filhos, e não a um aumento do número final desses filhos.
Nadine Lefaucheur faz referência
para o facto do número de nascimentos fora do casamento ter registado uma
subida. No início dos anos sessenta, nos países europeus, estas taxas eram
muito baixas (cerca de 2%). Essas taxas de nascimentos fora do casamento
quintuplicou ou mesmo sextuplicou em vinte e cinco anos.
“Em 1990, um recém-nascido
francês em cada quatro tinha pais que não eram casados.” Pág. 480
“Por importantes que sejam, estes
números ficam bastante abaixo dos países escandinavos, onde, no início dos anos
sessenta, uma criança em cada dez nascia já de pais não casados, proporção que,
no final dos anos oitenta, passou para uma em cada duas. O crescimento,
desigual mas geral, dos nascimentos “ilegítimos” bastaria, por si só, para
indicar que a frente do casamento foi pelo menos abalada tão violentamente como
a da fecundidade.” Pág. 481
Índice conjuntural de nupcialidade
Os índices conjunturais de
nupcialidade medem a probabilidade de casamento antes dos cinquenta anos, se as
condições do momento não se modificarem.
No início dos anos sessenta eram,
por todo o lado, superiores a 90%, tanto para os homens como para as mulheres.
Começaram a declinar a partir de meados da década na Escandinávia e, alguns
anos mais tarde, na maior parte das democracias da Europa Central e depois da
Ocidental. Em meados da década de oitenta, em todos estes países, atingiram
níveis compreendidos entre 48% e 66%. Este facto, segundo a autora, significava
que, se as condições do momento se mantivessem, uma pessoa em cada duas ou em
cada três ficaria solteira. Para a nupcialidade como para a fecundidade, nos
países mediterrânicos, só no final da década de setenta os índices baixaram.
Divórcio e monoparentalidade
As taxas de divórcio e
monoparentalidade começavam a subir em flecha na maior parte dos países ocidentais.
A subida das uniões de facto, não
atingiu apenas os jovens, mas foi registada sobretudo entre os menores de
trinta anos: “na Suécia, em 1985, nesta classe etária, os casais não casados
eram mais numerosos do que os casados. Nos Estados Unidos, em 1983, entre as
mulheres solteiras que não residiam em casa dos pais, mais de 20% das que
tinham menos de trinta e cinco anos viviam em união livre, o que apenas
acontecia a menos de 10% das que tinham idades compreendidas entre os trinta e
cinco e os cinquenta e cinco anos. Em França, no final dos anos oitenta, cerca
de metade das mulheres de menos de trinta anos que viviam com um companheiro
não eram casadas.” Pág. 482
As curvas de divórcio começaram a
subir (onde era autorizado), ainda antes da queda dos índices nupcialidade.
Também aqui o Sul da Europa registava números mais baixos, registando-se os
mais elevados na Dinamarca.
Índice conjuntural de divórcios
Mede em percentagem a
probabilidade de os casais se divorciarem se as condições do momento se não modificarem.
“Compreendido entre 6 (Escócia) e
18 (Suécia e Dinamarca) em meados da década de sessenta na Europa Ocidental
(com excepção, claro, dos países onde o divórcio continuava a ser proibido,
como a Itália, a Espanha e a Irlanda), este Índice atingia os 50 na Suécia em
1075, e os 40 no Reino Unido e na Dinamarca em 1980, data na qual era próximo
de 25 na maior parte dos outros países, antes de aumentar ainda 5 a 10 pontos
nos anos seguintes. Nos Estados Unidos, onde era já de 25 em meados do século,
começou a aumentar por volta de 1960 para atingir os 40 a partir de 1970. “
Pág. 482
Ao mesmo tempo que se tornava
mais frequente, o divórcio tornava-se também mais precoce. Assim, na
Grã-Bretanha, para se poder contar 14% de casais divorciados entre os que se
tinham casado num determinado ano, houve que esperar vinte anos para que os
casados em1959, dez anos para os de 1969 e seis anos apenas para os de 1979.
Desta situação resultou um
aumento das famílias monoparentais na generalidade dos países desenvolvidos. A
monoparentalidade deixou de estar somente relacionada com a viuvez ou com
pessoas abandonadas pelo cônjuge, mas também e sobretudo com a situação de
divórcio ou com a separação voluntária. Sendo estas as principais razões pelas
quais os filhos vivem apenas com um dos pais.
Nos finais dos anos 80, a maior
parte dos países da CEE, os lares monoparentais representavam 10%, sendo
somente um quarto fruto de divórcios. Esta percentagem estava relacionada
sobretudo com países onde o divórcio continuava proibido, como o caso da
Bélgica e do Luxemburgo, ou em países onde o divórcio tinha sido autorizado
recentemente como o caso dos países mediterrânicos e da Irlanda. Em países como
a Dinamarca, a Alemanha Federal, França, reino Unido, os pais sós representavam
aí mais de 10% das pessoas que viviam com crianças a cargo. “ (perto de 20% na
Dinamarca, de 25% nos estados Unidos), e entre estes pais sós contavam-se menos
de 25% de viúvos ou viúvas e mais de 40% de divorciados (cerca de 70% na
Dinamarca).” Pág.484
“Tal como as turbulências que
afectam a fecundidade e a nupcialidade, o aparecimento deste novo regime da
monoparentalidade aparece muitas vezes como a consequência e o sintoma de uma
crise do modelo familiar “nuclear”, com papéis conjugais e parentais sexualmente
muito diferenciados.” Pág 484
Nos anos cinquenta, os discursos
sobre a família celebravam (ou deploravam) o triunfo da família conjugal
“nuclear”, reduzida ao triângulo pai-mãe-filhos, sobre a família patriarcal
“alargada”, que se dizia, reunia outrora gerações e linhagens sob um mesmo
tecto. A coabitação entre gerações e fratrias adultas já não era, de facto, a
norma em muitas regiões desde o final da idade média, e o baby-boom teve
sobretudo como efeito, num contexto de penúria de habitações, fazer aumentar o
número médio de pessoas em cada lar: nos anos cinquenta, as famílias compostas
pelo menos por três pessoas eram maioritárias em todos os países desenvolvidos.
Homens ou mulheres que vivem sós - o habitat “individual”
Nos anos 80, as famílias
compreendendo apenas uma ou duas pessoas representavam mais de metade dos lares
nos países escandinavos, na Áustria e na Suíça, na Bélgica e nos Países Baixos,
em França, na Alemanha Federal e no Reino Unido. Não tendo a proporção de lares
com duas pessoas variado nesses países, foi o habitat “individual” que se
generalizou aí fortemente: Nos países ocidentais, um terço a um quinto dos
lares, eram compostos por homens ou mulheres que viviam sós.
Segundo Nadine Lefaucheur, o
aumento de pessoas em habitat individual deve-se, em larga medida, á não
coabitação generalizada das gerações adultas, ao aumento geral da esperança de
vida e á maior longevidade das mulheres.
A autora refere que, segundo
inquéritos realizados em França, em 1985, a “conjugalidade não coabitante” tem
um peso significativo. Entre as pessoas de menos de quarenta e cinco anos de
idade, um quarto dos homens e um terço das mulheres que vivem sós mantêm uma
relação amorosa estável.
Taxa de actividade em mulheres casadas
Segundo a autora, no final da
década de setenta, no interior da OCDE, a taxa de actividade profissional das
mulheres nos países escandinavos e anglo-saxónicos era a mais elevada: mais de
45% das mulheres com idade superior a quinze anos de idade.
Em 1985, a proporção das mulheres
casadas com menos de cinquenta anos de idade que tinham uma actividade
profissional ultrapassava os 55%, em cinco dos estados da Europa dos dez:
“Alemanha Federal, Bélgica, Reino Unido, França e Dinamarca (país onde atingia
87%).” Pág. 485
“A família continua a passar bem” Pág.486
Em meados dos anos sessenta os
índices começam-se a comportar agitadamente.
Apesar de algumas visões
alarmistas sobre a evolução da “família”, muitos sociólogos afirmam que está
tudo bem. Nadine Lefaucheur refere que, segundo os estudos, “as Alemãs
Ocidentais se casam quando querem ter filhos, ficando em casa quando são mais
jovens; refere que as Americanas coabitam pouco, se divorciam muito e que se
voltam a casar com muita facilidade; em França, em meados dos anos oitenta,
apesar do aumento dos divórcios, da coabitação e dos nascimentos fora do
casamento, 83% dos jovens com menos de vinte anos eram filhos de pais casados e
viviam com eles, enquanto que uma proporção equivalente dos homens e mulheres
de trinta a cinquenta anos de idade estavam casados e não se tinham
divorciado.” Pág. 486
Família/Trabalho/Dependentes
Segundo Nadine Lefaucheur, as
análises feministas das últimas décadas deixam subentender que, detrás da
subida das taxas de actividade profissional feminina, a mulher continua a dar
prioridade à esfera doméstica e familiar, à criação dos filhos, aos cuidados a
pessoas fisicamente dependentes, ao trabalho e à produção domésticos.
A autora refere que a focalização
sobre os factores de perenidade da instituição familiar e da ordem sexual levam
a não valorizar a dimensão das “transformações que, nos países desenvolvidos
ocidentais, desde há um século, … afectaram a reprodução das populações e da
sua força de trabalho.” Pág. 486
UM NOVO REGIME DA MATERNIDADE
Segundo a investigadora, as
descobertas e os avanços tecnológicos e científicos efectuados a partir do
último terço do século XIX transformaram os fundamentos tradicionais da divisão
do trabalho e do poder entre os sexos, fazendo recuar a mortalidade, permitindo
através do uso de anticoncepcionais, um maior controlo da natalidade e
diminuindo consideravelmente a parte ocupada pela gestação e amamentação no
ciclo de vida das mulheres.
Como iremos ver mais à frente,
estas inovações foram determinantes na reviravolta da situação das mulheres
fazendo com que elas deixassem de ocupar somente o espaço do lar e da
maternidade a ele associada, passando a ter actividades fora dele, quer porque
ficaram com mais disponibilidade de tempo, quer porque o mercado de trabalho se
alargou e se transformou, permitindo a existência de espaço para o trabalho
feminino.
Esperança de Vida
A esperança de vida cresceu
visivelmente. Uma Francesa nascida em meados do século XVIII tinha, em média,
menos de trinta anos à sua frente; um século mais tarde, tinha quarenta;
nascida em 1930, eram-lhe prometidos sessenta anos, nascida em 1987, poderá
atingir os oitenta anos.
Este alongamento de vida foi mais
importante para as mulheres do que para os homens. Em 1950, em todos os países
desenvolvidos, a esperança de vida das mulheres de trinta anos ultrapassava já,
em média, três anos à dos homens.
Mortalidade
A diminuição considerável da
mortalidade foi o motor daquilo que foi chamado transição demográfica: os
casais dos países desenvolvidos, “ não sendo já obrigados a ter mais de cinco
ou seis filhos para terem hipótese de ver dois atingir a idade adulta, puderam,
quiseram e tiveram de limitar pouco a pouco a sua fecundidade, entrando num
“novo regime” demográfico, caracterizado por uma fraca fecundidade.” Pág. 488
Métodos contraceptivos
A autora refere a importância para a evolução das sociedades desenvolvidas do birth control que teve início nos finais dos anos cinquenta, com a comercialização dos contraceptivos hormonais e dos dispositivos intra-uterinos, pensando-se, na altura, que se tinha o instrumento absoluto de controlo dos nascimentos.
Estes métodos, quando apareceram,
provocaram e estiveram na origem da revolução das relações entre os sexos no
que respeita à iniciativa e ao controlo da concepção e ao conjunto da vida
sexual.
“Quando as mulheres utilizam
estes métodos, os homens, pela primeira vez na história da humanidade, deixam
de as poder expor contra a sua vontade ao risco de uma gravidez, e o seu
próprio desejo de paternidade torna-se tributário da vontade de maternidade das
suas parceiras.” Pág. 489, 490
A ciência contribuiu para a
redução da taxa de mortalidade infantil e o uso dos contraceptivos, permitindo
que a mulher não necessitasse de ter tantos filhos, na esperança de que alguns
sobrevivessem, podendo passar a planear as suas gravidezes. Estes factores
fizeram diminuir o tempo durante o qual a mulher se encontrava grávida.
Gestação e nutrição
Nadine Lefecheur faz referência à importância das novas tecnologias na alimentação dos bebés e ao facto de a sua comercialização permitir separar a gestação e nutrição. “Com a esterilização do leite animal, dos biberões e tetinas, e com o aperfeiçoamento do leite e dos alimentos industriais para bebés” a média de duração da amamentação diminuiu e foi possível alargar o leque de pessoas que podiam substituir a mãe na alimentação das crianças de tenra idade. É aqui que entra a “grande estreia histórica”, o pai pode substituir a mãe na alimentação do recém-nascido. Este acontecimento permite às mães uma maior liberdade podendo nesta altura desenvolver outro tipo de actividades, delegando esta importante tarefa de alimentar ao pai ou a outro adulto.
Estado Social e Trabalho de Reprodução
Nas três décadas que se seguiram
à Segunda Guerra Mundial registou-se, nos países capitalistas desenvolvidos, um
forte crescimento económico. A par do crescimento económico foi crescendo,
nestes países, embora de formas desiguais, o chamado Welfare. Este assumia a
forma de Estado Providência procurando dar aos cidadãos bem-estar e segurança.
O Estado Social era
característico de um Estado moderno e, segundo Nadine Lefaucheur, foi o “motor
do desenvolvimento da produção e do consumo de massa, o Welfare revolucionou o
trabalho de manutenção e de arranjo da casa, tradicionalmente efectuado pelas
mulheres no quadro doméstico.” Pág 491
Libertação da dona de casa
Habitação
A grave crise da habitação
resultante da guerra provocou um crescimento do parque habitacional e a
superfície média da habitação duplicou. Segundo a autora, em todos os países
ocidentais, o universo doméstico teve enormes alterações.
A casa moderna compreende:
cozinha, quarto de banho, quartos de dormir e sala, possui água canalizada no
interior, saneamento básico, gás e electricidade para aquecimento e para a
cozinha.
Mecanização do trabalho doméstico
Estas alterações de fundo
permitiram suprimir muitas das tarefas domésticas mais sujas e mais duras “
(faina quotidiana de aprovisionamento de água, carvão ou lenha, de acendimento
e vigilância do lume, de evacuação das cinzas, das águas sujas e dos
excrementos)”. Com o aparecimento dos electrodomésticos a mulher ficou com
muitas das tarefas mecanizadas, o que igualmente lhe tirou muito do trabalho
doméstico.
Com o aparecimento de produtos e
matérias “modernas” – as conservas e produtos semi-preparados, congelados,
detergentes e produtos como o papel higiénico, fibras e têxteis novos, etc.,
assim como o facto de muitos serviços passarem a ser feito fora de casa, como a
confecção de vestuário, a preparação ou o serviço de refeições, a mulher
começou a ter a vida mais facilitada e a ganhar tempo e espaço fora do espaço
doméstico.
Capital
muscular/capital intelectual
“Enquanto o “Estado Social” entrava, assim, no lar e empurrava a
dona de casa para fora dele, a lógica “industrial” da afectação prioritária dos
homens aos trabalhos assalariados “pesados” e das mulheres ao trabalho do lar
estava, por outro lado, minada pelas modificações que o sector terciário e o
uso da automatização e da informática introduziram nas características da
mão-de-obra que o mercado de trabalho “pós-indústrial” exigia.” Pág 494
Com efeito, se o “capital muscular” procurado nas primeiras
fases da industrialização exigia uma reconstituição quotidiana, e se o trabalho
que esta necessitava podia muito bem ser delegado em outrem, particularmente no
quadro doméstico, o mesmo não acontecia para o “capital intelectual”, doravante
privilegiado.
A autora refere a importância do contexto sócio-cultural da
família na aquisição deste capital intelectual, pois pressupõe-se que seja
adquirido antes de entrar no mercado de trabalho, é suposto que a família
desempenhe o seu papel cultural e intelectual. Ora o papel de educadora cabe à
mulher, mãe.
Colectivização do
trabalho de reprodução
Sistemas de protecção
social
Também, as pessoas idosas que
estavam a cargo das mulheres, deixaram, no mundo ocidental de ser um “peso”
embora a idade média de vida tivesse aumentado significativamente, registou-se
uma generalização das pensões de reforma, permitindo o recurso a serviços
externos de apoio, como os lares e apoio ao domiciliário.
Nadine Lefaucheur refere que,
“este aligeiramento e esta colectivização parcial do trabalho de socialização,
de guarda e de cuidados ás gerações dependentes, que incumbia às mulheres no
âmbito da actividade doméstica e limitava fortemente, em certos períodos do
ciclo de vida familiar, a sua disponibilidade para o mercado do trabalho,
permitiram-lhes assim manter-se neste mercado de um modo mais contínuo e
abriram-lhes igualmente empregos e carreiras.” Pág. 496
“Casadas” com o Estado Social?
O Estado Social proporciona às
mulheres a alternativa a certos tipos de cuidados que até então eram obrigadas
a assegurar, como no cuidado dos filhos e dos idosos, permitindo-lhes
desempenhar estas tarefas fora do território do lar, em instituições colectivas
que lhes pagavam por um trabalho que anteriormente faziam mas não era pago.
Esta situação faz que alguns
autores digam que as mulheres se casaram com “Estado-marido”, pois este passou
a assegurar as suas necessidades financeiras e de socialização dos mais novos e
dos mais velhos.
A colectivização do trabalho de
reprodução, segundo Nadine Lefaucheur, caracterizado pela intelectualização,
faz com que a associação conjugal e a sua perenidade, percam “amplamente as
suas bases funcionais”, sendo “cada vez mais fundamentadas e legitimadas pelo
sentimento do amor e pela atracção sexual e, portanto, cada vez mais “privadas”
e precárias”. Pág. 497
A relação de interdependência
gerada entre o Estado Social e as mulheres, não permite fazer face no que se
relaciona à dissolução do vinculo conjugal. Segundo a autora, “Um grupo de
países ocidentais é caracterizado, deste ponto de vista, por um forte risco de
pobreza associado à monoparentalidade e por uma protecção muito fraca
relativamente a este risco.” Pág. 500
Parece muito relevante e
conclusivo o último parágrafo do trabalho de Nadine Lefaucheur. Aqui, ela faz
referência às alterações que o Estado Social trouxe à vida das mulheres, mas
que, por outro lado, não as “libertou” completamente da dependência que a
conjugalidade ainda tem. A separação conjugal pode conduzir à monoparentalidade
e a esta está associado, um pouco por todo o mundo ocidental, um elevado risco
de pobreza a que ficam sujeitas as mulheres e as suas famílias.
Embora esse risco tenda a
diminuir em países em que o Estado Social se mostra mais atento aos fenómenos
da monoparentalidade, como no caso da Suécia, outros há que a protecção social
é muito precária, fazendo com que as famílias monoparentais caiam na pobreza ou
que corram sérios riscos de lá chegarem.
“Do seu casamento com o Estado do Bem Estar Social, as mulheres
ocidentais, empregadas ou clientes, estão bem longe de alcançar as mesmas
possibilidades de autonomização relativamente ao vínculo conjugal e o mesmo
grau de protecção face ao risco de pobreza associado à sua dissolução.”…” se,
segundo a perspectiva aqui adoptada, os fundamentos tecnológicos e económicos
das relações entre os sexos foram abaladas, no decurso da segunda metade do
século XX e no conjunto dos países desenvolvidos, pelo aparecimento de um novo
regime de reprodução das populações e da sua força de trabalho, a história e o
conjunto das relações entre grupos sociais modelam, particularmente através das
diferentes legislações do Welfare, as figuras diversas segundo as quais este
abalo se traduz na vida dos homens e das mulheres de cada país – e de cada
classe social.” Pág. 503
Conclusão
Nadine Lefaucheur argumenta que a
nova concepção de socialização promovida pelo Estado Social, modificou
consideravelmente a relação das mulheres com o mercado de trabalho, tanto no
espaço doméstico como também no espaço público.
À medida que a mecanização das
tarefas domésticas e a do trabalho de
reprodução se foi verificando, passou a ser permitido à mulher sair para
trabalhar, embora sobretudo nas mesmas esferas de actuação do espaço doméstico,
a educação, o cuidar de crianças, idosos e dependentes, ou em tarefas que não
exigiam “músculos”.
O facto de o estado assumir a
responsabilidade da protecção social de grupos menos favorecidos,
encontrando-se neste caso as mulheres, crianças e idosos, permitiu que a mulher
ficasse mais liberta para o trabalho fora de casa.
Não há dúvida que a
industrialização teve um grande papel na libertação e autonomização da mulher
na sociedade, criando um novo modelo de relações familiares e de entre-ajuda.
Por um lado permite cada vez mais à mulher ocupar espaços que até então lhe eram
vedados e por outro faz com que o homem de igual modo venha a ocupar dentro de
casa o espaço que era exclusivo da mulher.
Esta mudança nos papéis sociais
que tradicionalmente caracterizavam o que era próprio do masculino e do
feminino, faz-nos repensar todo o modelo sócio-familiar, pois nele se vai
reflectir as ocupações profissionais e ou outras da mulher e do homem, exigindo
uma grande capacidade de adaptação ao que é novo e portanto à mudança.
Nota:
Nadine Lefaucheur é uma socióloga e historiadora Francesa, responsável pela pesquisa no centro Nacional de pesquisa científica em Paris (CNRS)
É responsável pela pesquisa num grupo de pesquisas e análise social e da sociabilidade. O seu trabalho reporta-se ao tratamento das situações familiares anormais.
Tem várias obras publicadas na área dos estudos sobre mulheres e pode-se encontrar o nome dela como professora no Centro de pesquisa sobre os poderes locais nas Caraíbas na Universidade de Martinica.
Faz-se uma retrospectiva histórica sobre o papel da mulher antes e sobretudo depois da segunda guerra mundial, onde muita coisa mudou por força das necessidades da sociedade industrial e do consequente desenvolvimento e modernização tecnológica.
Nadine Lefaucheur aborda as questões da maternidade, Família e Estado no mundo Ocidental, caracterizando e ilustrando as suas afirmações que numerosos dados estatísticos que nos permitem ficar com uma ideia mais clara e precisa da informação.
Relacionado com a família, fala da maternidade, nupcialidade, uniões de facto, divórcios e novas apresentações de famílias: famílias de três elementos, de habitat individual e de monoparentalidade.
A investigadora, associa as descobertas e os avanços tecnológicos e científicos efectuados a partir do último terço do século XIX à transformação que o papel da mulher e por arrasto a situação de maternidade,. Alterações na divisão do trabalho e do poder entre os sexos, a diminuição da mortalidade, permitindo através do uso de anticoncepcionais, um maior controlo da natalidade e diminuindo consideravelmente a parte ocupada pela gestação e amamentação no ciclo de vida das mulheres.
As inovações tecnológicas foram determinantes na reviravolta da situação das mulheres fazendo com que elas deixassem de ocupar somente o espaço do lar, passando a ter actividades fora dele, quer porque ficaram com mais disponibilidade de tempo, quer porque o mercado de trabalho se alargou e se transformou, permitindo a existência de espaço para o trabalho feminino.
Nas três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial registou-se, nos países capitalistas desenvolvidos, um forte crescimento económico. A par do crescimento económico foi crescendo, nestes países, embora de formas desiguais, o chamado Estado Social. Este assumia a forma de Estado Providência procurando dar aos cidadãos bem-estar e segurança. Nadine Lefaucheur fala-nos das mudanças ao nível da tipologia das habitações, do melhoramento e da mecanização do trabalho doméstico, da importância do capital intelectual versus o muscular, da colectivização do trabalho de reprodução e da criação do estado “Welfare” através de sistemas de protecção social.
Maternidade, Família, Estado
Nadine Lefaucheur
História das Mulheres no Ocidente, vol.5, pp.479-503
Bibliografia
Formação em Maternidade, família e Estado
http://www.bluets.org/article.php3?id_article=131

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