Publicação em destaque

Maternidade, Família, Estado

Maternidade, Família, Estado Nadine Lefaucheuer, num trabalho intitulado,”Maternidade, Família, Estado”, aborda três grandes temas: a famí...

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Maternidade, Família, Estado


Maternidade, Família, Estado

Nadine Lefaucheuer, num trabalho intitulado,”Maternidade, Família, Estado”, aborda três grandes temas: a família, a maternidade, Welfare, trabalho de reprodução e a sua relação com as mulheres.

A FAMÍLIA NA TORMENTA

Relacionado com a família, Nadine Lefaucheur fala da maternidade, nupcialidade, uniões de facto, divórcios e novas apresentações de famílias: famílias de três elementos, de habitat individual e de monoparentalidade.

A autora define família como o “lugar habitual da reprodução biológica das populações humanas, lugar privilegiado da sua reprodução social, a família é também o lugar onde se entrecruzam as relações sociais fundadas na diferença dos sexos e nas relações de filiação, de aliança e de coabitação.” Pág. 478

Segundo Nadine Lefaucheur, a família, durante os anos sessenta, nos países desenvolvidos, é afectada pelas transformações demográficas, tecnológicas e económicas que estão ligadas ao aparecimento de um novo regime de produção. Este regime, segundo a autora, interfere nas bases materiais e sociais das relações entre os sexos e, segundo esta, desvaloriza a família como lugar de “destinação”. Pág. 478

Fecundidade

Antes da segunda Guerra Mundial, e mais visivelmente depois da mesma, em todos os países ocidentais, as taxas de natalidade vinham a registar uma subida em relação ao final do séc. XIX.

Nos anos sessenta o chamado Baby-Boom tinha terminado. Os diversos indicadores de natalidade no ocidente em meados dos anos sessenta começaram a registar descidas vertiginosas, fazendo com que a maior parte dos países desenvolvidos estivesse abaixo do limiar de substituição da população.

Índice de Conjugalidade e fecundidade

Actualmente, e tendo em conta as condições de mortalidade nos países desenvolvidos, o índice conjuntural de fecundidade deve ser próximo de 2,1 (filhos por mulher) para que a reprodução da população seja assegurada de modo estável sem recurso à imigração.

Segundo números apresentados pela autora, todo o mundo ocidental registou caídas preocupantes de fecundidade durante os meados dos anos sessenta e até finais dos anos oitenta.

Como exemplo, temos os Estados Unidos que, em 1957, tinha uma taxa de 3,7 e, em 1975, 1,8. O Norte da Europa, em 1964, registava uma taxa de 2.5 e mesmo de 3, passando a apresentar, em 1975, uma taxa abaixo de 2.

No final da década de oitenta registou-se em alguns países europeus uma ligeira subida, mas que, segundo a autora, se deve ao facto de ter subido a idade média das mulheres ao nascimento dos filhos, e não a um aumento do número final desses filhos.

Nadine Lefaucheur faz referência para o facto do número de nascimentos fora do casamento ter registado uma subida. No início dos anos sessenta, nos países europeus, estas taxas eram muito baixas (cerca de 2%). Essas taxas de nascimentos fora do casamento quintuplicou ou mesmo sextuplicou em vinte e cinco anos.

“Em 1990, um recém-nascido francês em cada quatro tinha pais que não eram casados.” Pág. 480

“Por importantes que sejam, estes números ficam bastante abaixo dos países escandinavos, onde, no início dos anos sessenta, uma criança em cada dez nascia já de pais não casados, proporção que, no final dos anos oitenta, passou para uma em cada duas. O crescimento, desigual mas geral, dos nascimentos “ilegítimos” bastaria, por si só, para indicar que a frente do casamento foi pelo menos abalada tão violentamente como a da fecundidade.” Pág. 481

Índice conjuntural de nupcialidade

Os índices conjunturais de nupcialidade medem a probabilidade de casamento antes dos cinquenta anos, se as condições do momento não se modificarem.

No início dos anos sessenta eram, por todo o lado, superiores a 90%, tanto para os homens como para as mulheres. Começaram a declinar a partir de meados da década na Escandinávia e, alguns anos mais tarde, na maior parte das democracias da Europa Central e depois da Ocidental. Em meados da década de oitenta, em todos estes países, atingiram níveis compreendidos entre 48% e 66%. Este facto, segundo a autora, significava que, se as condições do momento se mantivessem, uma pessoa em cada duas ou em cada três ficaria solteira. Para a nupcialidade como para a fecundidade, nos países mediterrânicos, só no final da década de setenta os índices baixaram.

Divórcio e monoparentalidade

As taxas de divórcio e monoparentalidade começavam a subir em flecha na maior parte dos países ocidentais.

A subida das uniões de facto, não atingiu apenas os jovens, mas foi registada sobretudo entre os menores de trinta anos: “na Suécia, em 1985, nesta classe etária, os casais não casados eram mais numerosos do que os casados. Nos Estados Unidos, em 1983, entre as mulheres solteiras que não residiam em casa dos pais, mais de 20% das que tinham menos de trinta e cinco anos viviam em união livre, o que apenas acontecia a menos de 10% das que tinham idades compreendidas entre os trinta e cinco e os cinquenta e cinco anos. Em França, no final dos anos oitenta, cerca de metade das mulheres de menos de trinta anos que viviam com um companheiro não eram casadas.” Pág. 482

As curvas de divórcio começaram a subir (onde era autorizado), ainda antes da queda dos índices nupcialidade. Também aqui o Sul da Europa registava números mais baixos, registando-se os mais elevados na Dinamarca.

Índice conjuntural de divórcios

Mede em percentagem a probabilidade de os casais se divorciarem se as condições do momento se não modificarem.

“Compreendido entre 6 (Escócia) e 18 (Suécia e Dinamarca) em meados da década de sessenta na Europa Ocidental (com excepção, claro, dos países onde o divórcio continuava a ser proibido, como a Itália, a Espanha e a Irlanda), este Índice atingia os 50 na Suécia em 1075, e os 40 no Reino Unido e na Dinamarca em 1980, data na qual era próximo de 25 na maior parte dos outros países, antes de aumentar ainda 5 a 10 pontos nos anos seguintes. Nos Estados Unidos, onde era já de 25 em meados do século, começou a aumentar por volta de 1960 para atingir os 40 a partir de 1970. “ Pág. 482

Ao mesmo tempo que se tornava mais frequente, o divórcio tornava-se também mais precoce. Assim, na Grã-Bretanha, para se poder contar 14% de casais divorciados entre os que se tinham casado num determinado ano, houve que esperar vinte anos para que os casados em1959, dez anos para os de 1969 e seis anos apenas para os de 1979.

Desta situação resultou um aumento das famílias monoparentais na generalidade dos países desenvolvidos. A monoparentalidade deixou de estar somente relacionada com a viuvez ou com pessoas abandonadas pelo cônjuge, mas também e sobretudo com a situação de divórcio ou com a separação voluntária. Sendo estas as principais razões pelas quais os filhos vivem apenas com um dos pais.

Nos finais dos anos 80, a maior parte dos países da CEE, os lares monoparentais representavam 10%, sendo somente um quarto fruto de divórcios. Esta percentagem estava relacionada sobretudo com países onde o divórcio continuava proibido, como o caso da Bélgica e do Luxemburgo, ou em países onde o divórcio tinha sido autorizado recentemente como o caso dos países mediterrânicos e da Irlanda. Em países como a Dinamarca, a Alemanha Federal, França, reino Unido, os pais sós representavam aí mais de 10% das pessoas que viviam com crianças a cargo. “ (perto de 20% na Dinamarca, de 25% nos estados Unidos), e entre estes pais sós contavam-se menos de 25% de viúvos ou viúvas e mais de 40% de divorciados (cerca de 70% na Dinamarca).” Pág.484

“Tal como as turbulências que afectam a fecundidade e a nupcialidade, o aparecimento deste novo regime da monoparentalidade aparece muitas vezes como a consequência e o sintoma de uma crise do modelo familiar “nuclear”, com papéis conjugais e parentais sexualmente muito diferenciados.” Pág  484

 Família conjugal “nuclear”

Nos anos cinquenta, os discursos sobre a família celebravam (ou deploravam) o triunfo da família conjugal “nuclear”, reduzida ao triângulo pai-mãe-filhos, sobre a família patriarcal “alargada”, que se dizia, reunia outrora gerações e linhagens sob um mesmo tecto. A coabitação entre gerações e fratrias adultas já não era, de facto, a norma em muitas regiões desde o final da idade média, e o baby-boom teve sobretudo como efeito, num contexto de penúria de habitações, fazer aumentar o número médio de pessoas em cada lar: nos anos cinquenta, as famílias compostas pelo menos por três pessoas eram maioritárias em todos os países desenvolvidos.

Homens ou mulheres que vivem sós - o habitat “individual”

Nos anos 80, as famílias compreendendo apenas uma ou duas pessoas representavam mais de metade dos lares nos países escandinavos, na Áustria e na Suíça, na Bélgica e nos Países Baixos, em França, na Alemanha Federal e no Reino Unido. Não tendo a proporção de lares com duas pessoas variado nesses países, foi o habitat “individual” que se generalizou aí fortemente: Nos países ocidentais, um terço a um quinto dos lares, eram compostos por homens ou mulheres que viviam sós.

Segundo Nadine Lefaucheur, o aumento de pessoas em habitat individual deve-se, em larga medida, á não coabitação generalizada das gerações adultas, ao aumento geral da esperança de vida e á maior longevidade das mulheres.

A autora refere que, segundo inquéritos realizados em França, em 1985, a “conjugalidade não coabitante” tem um peso significativo. Entre as pessoas de menos de quarenta e cinco anos de idade, um quarto dos homens e um terço das mulheres que vivem sós mantêm uma relação amorosa estável.

Taxa de actividade em mulheres casadas

Segundo a autora, no final da década de setenta, no interior da OCDE, a taxa de actividade profissional das mulheres nos países escandinavos e anglo-saxónicos era a mais elevada: mais de 45% das mulheres com idade superior a quinze anos de idade.

Em 1985, a proporção das mulheres casadas com menos de cinquenta anos de idade que tinham uma actividade profissional ultrapassava os 55%, em cinco dos estados da Europa dos dez: “Alemanha Federal, Bélgica, Reino Unido, França e Dinamarca (país onde atingia 87%).” Pág. 485

“A família continua a passar bem” Pág.486

Em meados dos anos sessenta os índices começam-se a comportar agitadamente.

Apesar de algumas visões alarmistas sobre a evolução da “família”, muitos sociólogos afirmam que está tudo bem. Nadine Lefaucheur refere que, segundo os estudos, “as Alemãs Ocidentais se casam quando querem ter filhos, ficando em casa quando são mais jovens; refere que as Americanas coabitam pouco, se divorciam muito e que se voltam a casar com muita facilidade; em França, em meados dos anos oitenta, apesar do aumento dos divórcios, da coabitação e dos nascimentos fora do casamento, 83% dos jovens com menos de vinte anos eram filhos de pais casados e viviam com eles, enquanto que uma proporção equivalente dos homens e mulheres de trinta a cinquenta anos de idade estavam casados e não se tinham divorciado.” Pág. 486

Família/Trabalho/Dependentes

Segundo Nadine Lefaucheur, as análises feministas das últimas décadas deixam subentender que, detrás da subida das taxas de actividade profissional feminina, a mulher continua a dar prioridade à esfera doméstica e familiar, à criação dos filhos, aos cuidados a pessoas fisicamente dependentes, ao trabalho e à produção domésticos.

A autora refere que a focalização sobre os factores de perenidade da instituição familiar e da ordem sexual levam a não valorizar a dimensão das “transformações que, nos países desenvolvidos ocidentais, desde há um século, … afectaram a reprodução das populações e da sua força de trabalho.” Pág. 486

UM NOVO REGIME DA MATERNIDADE

Segundo a investigadora, as descobertas e os avanços tecnológicos e científicos efectuados a partir do último terço do século XIX transformaram os fundamentos tradicionais da divisão do trabalho e do poder entre os sexos, fazendo recuar a mortalidade, permitindo através do uso de anticoncepcionais, um maior controlo da natalidade e diminuindo consideravelmente a parte ocupada pela gestação e amamentação no ciclo de vida das mulheres.

Como iremos ver mais à frente, estas inovações foram determinantes na reviravolta da situação das mulheres fazendo com que elas deixassem de ocupar somente o espaço do lar e da maternidade a ele associada, passando a ter actividades fora dele, quer porque ficaram com mais disponibilidade de tempo, quer porque o mercado de trabalho se alargou e se transformou, permitindo a existência de espaço para o trabalho feminino.

Esperança de Vida

A esperança de vida cresceu visivelmente. Uma Francesa nascida em meados do século XVIII tinha, em média, menos de trinta anos à sua frente; um século mais tarde, tinha quarenta; nascida em 1930, eram-lhe prometidos sessenta anos, nascida em 1987, poderá atingir os oitenta anos.

Este alongamento de vida foi mais importante para as mulheres do que para os homens. Em 1950, em todos os países desenvolvidos, a esperança de vida das mulheres de trinta anos ultrapassava já, em média, três anos à dos homens.

Mortalidade

A diminuição considerável da mortalidade foi o motor daquilo que foi chamado transição demográfica: os casais dos países desenvolvidos, “ não sendo já obrigados a ter mais de cinco ou seis filhos para terem hipótese de ver dois atingir a idade adulta, puderam, quiseram e tiveram de limitar pouco a pouco a sua fecundidade, entrando num “novo regime” demográfico, caracterizado por uma fraca fecundidade.” Pág. 488

 

Métodos contraceptivos


A autora refere a importância para a evolução das sociedades desenvolvidas do birth control que teve início nos finais dos anos cinquenta, com a comercialização dos contraceptivos hormonais e dos dispositivos intra-uterinos, pensando-se, na altura, que se tinha o instrumento absoluto de controlo dos nascimentos.

Estes métodos, quando apareceram, provocaram e estiveram na origem da revolução das relações entre os sexos no que respeita à iniciativa e ao controlo da concepção e ao conjunto da vida sexual.

“Quando as mulheres utilizam estes métodos, os homens, pela primeira vez na história da humanidade, deixam de as poder expor contra a sua vontade ao risco de uma gravidez, e o seu próprio desejo de paternidade torna-se tributário da vontade de maternidade das suas parceiras.” Pág. 489, 490

A ciência contribuiu para a redução da taxa de mortalidade infantil e o uso dos contraceptivos, permitindo que a mulher não necessitasse de ter tantos filhos, na esperança de que alguns sobrevivessem, podendo passar a planear as suas gravidezes. Estes factores fizeram diminuir o tempo durante o qual a mulher se encontrava grávida.

Gestação e nutrição


Nadine Lefecheur faz referência à importância das novas tecnologias na alimentação dos bebés e ao facto de a sua comercialização permitir separar a gestação e nutrição. “Com a esterilização do leite animal, dos biberões e tetinas, e com o aperfeiçoamento do leite e dos alimentos industriais para bebés” a média de duração da amamentação diminuiu e foi possível alargar o leque de pessoas que podiam substituir a mãe na alimentação das crianças de tenra idade. É aqui que entra a “grande estreia histórica”, o pai pode substituir a mãe na alimentação do recém-nascido. Este acontecimento permite às mães uma maior liberdade podendo nesta altura desenvolver outro tipo de actividades, delegando esta importante tarefa de alimentar ao pai ou a outro adulto.

Estado Social e Trabalho de Reprodução

Nas três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial registou-se, nos países capitalistas desenvolvidos, um forte crescimento económico. A par do crescimento económico foi crescendo, nestes países, embora de formas desiguais, o chamado Welfare. Este assumia a forma de Estado Providência procurando dar aos cidadãos bem-estar e segurança.

O Estado Social era característico de um Estado moderno e, segundo Nadine Lefaucheur, foi o “motor do desenvolvimento da produção e do consumo de massa, o Welfare revolucionou o trabalho de manutenção e de arranjo da casa, tradicionalmente efectuado pelas mulheres no quadro doméstico.” Pág 491

Libertação da dona de casa



Habitação

A grave crise da habitação resultante da guerra provocou um crescimento do parque habitacional e a superfície média da habitação duplicou. Segundo a autora, em todos os países ocidentais, o universo doméstico teve enormes alterações.

A casa moderna compreende: cozinha, quarto de banho, quartos de dormir e sala, possui água canalizada no interior, saneamento básico, gás e electricidade para aquecimento e para a cozinha.

Mecanização do trabalho doméstico

Estas alterações de fundo permitiram suprimir muitas das tarefas domésticas mais sujas e mais duras “ (faina quotidiana de aprovisionamento de água, carvão ou lenha, de acendimento e vigilância do lume, de evacuação das cinzas, das águas sujas e dos excrementos)”. Com o aparecimento dos electrodomésticos a mulher ficou com muitas das tarefas mecanizadas, o que igualmente lhe tirou muito do trabalho doméstico.

Com o aparecimento de produtos e matérias “modernas” – as conservas e produtos semi-preparados, congelados, detergentes e produtos como o papel higiénico, fibras e têxteis novos, etc., assim como o facto de muitos serviços passarem a ser feito fora de casa, como a confecção de vestuário, a preparação ou o serviço de refeições, a mulher começou a ter a vida mais facilitada e a ganhar tempo e espaço fora do espaço doméstico.

Capital muscular/capital intelectual

“Enquanto o “Estado Social” entrava, assim, no lar e empurrava a dona de casa para fora dele, a lógica “industrial” da afectação prioritária dos homens aos trabalhos assalariados “pesados” e das mulheres ao trabalho do lar estava, por outro lado, minada pelas modificações que o sector terciário e o uso da automatização e da informática introduziram nas características da mão-de-obra que o mercado de trabalho “pós-indústrial” exigia.” Pág 494

Com efeito, se o “capital muscular” procurado nas primeiras fases da industrialização exigia uma reconstituição quotidiana, e se o trabalho que esta necessitava podia muito bem ser delegado em outrem, particularmente no quadro doméstico, o mesmo não acontecia para o “capital intelectual”, doravante privilegiado.

A autora refere a importância do contexto sócio-cultural da família na aquisição deste capital intelectual, pois pressupõe-se que seja adquirido antes de entrar no mercado de trabalho, é suposto que a família desempenhe o seu papel cultural e intelectual. Ora o papel de educadora cabe à mulher, mãe.

Colectivização do trabalho de reprodução

Sistemas de protecção social

 Em meados dos anos oitenta, na comunidade Europeia a escolarização a tempo inteiro estava bastante generalizada a partir dos três anos de idade. Antes desta idade não havia empenho por parte dos estados em cobrir esta faixa etária, fazendo com que estas mães estivessem presas unicamente à maternidade e ao trabalho doméstico.

Também, as pessoas idosas que estavam a cargo das mulheres, deixaram, no mundo ocidental de ser um “peso” embora a idade média de vida tivesse aumentado significativamente, registou-se uma generalização das pensões de reforma, permitindo o recurso a serviços externos de apoio, como os lares e apoio ao domiciliário.

Nadine Lefaucheur refere que, “este aligeiramento e esta colectivização parcial do trabalho de socialização, de guarda e de cuidados ás gerações dependentes, que incumbia às mulheres no âmbito da actividade doméstica e limitava fortemente, em certos períodos do ciclo de vida familiar, a sua disponibilidade para o mercado do trabalho, permitiram-lhes assim manter-se neste mercado de um modo mais contínuo e abriram-lhes igualmente empregos e carreiras.” Pág. 496

“Casadas” com o Estado Social?

O Estado Social proporciona às mulheres a alternativa a certos tipos de cuidados que até então eram obrigadas a assegurar, como no cuidado dos filhos e dos idosos, permitindo-lhes desempenhar estas tarefas fora do território do lar, em instituições colectivas que lhes pagavam por um trabalho que anteriormente faziam mas não era pago.

Esta situação faz que alguns autores digam que as mulheres se casaram com “Estado-marido”, pois este passou a assegurar as suas necessidades financeiras e de socialização dos mais novos e dos mais velhos.

A colectivização do trabalho de reprodução, segundo Nadine Lefaucheur, caracterizado pela intelectualização, faz com que a associação conjugal e a sua perenidade, percam “amplamente as suas bases funcionais”, sendo “cada vez mais fundamentadas e legitimadas pelo sentimento do amor e pela atracção sexual e, portanto, cada vez mais “privadas” e precárias”. Pág. 497

A relação de interdependência gerada entre o Estado Social e as mulheres, não permite fazer face no que se relaciona à dissolução do vinculo conjugal. Segundo a autora, “Um grupo de países ocidentais é caracterizado, deste ponto de vista, por um forte risco de pobreza associado à monoparentalidade e por uma protecção muito fraca relativamente a este risco.” Pág. 500

Parece muito relevante e conclusivo o último parágrafo do trabalho de Nadine Lefaucheur. Aqui, ela faz referência às alterações que o Estado Social trouxe à vida das mulheres, mas que, por outro lado, não as “libertou” completamente da dependência que a conjugalidade ainda tem. A separação conjugal pode conduzir à monoparentalidade e a esta está associado, um pouco por todo o mundo ocidental, um elevado risco de pobreza a que ficam sujeitas as mulheres e as suas famílias.

Embora esse risco tenda a diminuir em países em que o Estado Social se mostra mais atento aos fenómenos da monoparentalidade, como no caso da Suécia, outros há que a protecção social é muito precária, fazendo com que as famílias monoparentais caiam na pobreza ou que corram sérios riscos de lá chegarem.

 “Do seu casamento com o Estado do Bem Estar Social, as mulheres ocidentais, empregadas ou clientes, estão bem longe de alcançar as mesmas possibilidades de autonomização relativamente ao vínculo conjugal e o mesmo grau de protecção face ao risco de pobreza associado à sua dissolução.”…” se, segundo a perspectiva aqui adoptada, os fundamentos tecnológicos e económicos das relações entre os sexos foram abaladas, no decurso da segunda metade do século XX e no conjunto dos países desenvolvidos, pelo aparecimento de um novo regime de reprodução das populações e da sua força de trabalho, a história e o conjunto das relações entre grupos sociais modelam, particularmente através das diferentes legislações do Welfare, as figuras diversas segundo as quais este abalo se traduz na vida dos homens e das mulheres de cada país – e de cada classe social.” Pág. 503

Conclusão

Nadine Lefaucheur argumenta que a nova concepção de socialização promovida pelo Estado Social, modificou consideravelmente a relação das mulheres com o mercado de trabalho, tanto no espaço doméstico como também no espaço público.

À medida que a mecanização das tarefas domésticas e a  do trabalho de reprodução se foi verificando, passou a ser permitido à mulher sair para trabalhar, embora sobretudo nas mesmas esferas de actuação do espaço doméstico, a educação, o cuidar de crianças, idosos e dependentes, ou em tarefas que não exigiam “músculos”.

O facto de o estado assumir a responsabilidade da protecção social de grupos menos favorecidos, encontrando-se neste caso as mulheres, crianças e idosos, permitiu que a mulher ficasse mais liberta para o trabalho fora de casa.

Não há dúvida que a industrialização teve um grande papel na libertação e autonomização da mulher na sociedade, criando um novo modelo de relações familiares e de entre-ajuda. Por um lado permite cada vez mais à mulher ocupar espaços que até então lhe eram vedados e por outro faz com que o homem de igual modo venha a ocupar dentro de casa o espaço que era exclusivo da mulher.

Esta mudança nos papéis sociais que tradicionalmente caracterizavam o que era próprio do masculino e do feminino, faz-nos repensar todo o modelo sócio-familiar, pois nele se vai reflectir as ocupações profissionais e ou outras da mulher e do homem, exigindo uma grande capacidade de adaptação ao que é novo e portanto à mudança.

Nota:

Nadine Lefaucheur é uma socióloga e historiadora Francesa, responsável pela pesquisa no centro Nacional de pesquisa científica em Paris (CNRS)

É responsável pela pesquisa num grupo de pesquisas e análise social e da sociabilidade. O seu trabalho reporta-se ao tratamento das situações familiares anormais.

Tem várias obras publicadas na área dos estudos sobre mulheres e pode-se encontrar o nome dela como professora no Centro de pesquisa sobre os poderes locais nas Caraíbas na Universidade de Martinica.

Faz-se uma retrospectiva histórica sobre o papel da mulher antes e sobretudo depois da segunda guerra mundial, onde muita coisa mudou por força das necessidades da sociedade industrial e do consequente desenvolvimento e modernização tecnológica.

Nadine Lefaucheur aborda as questões da maternidade, Família e Estado no mundo Ocidental, caracterizando e ilustrando as suas afirmações que numerosos dados estatísticos que nos permitem ficar com uma ideia mais clara e precisa da informação.

Relacionado com a família, fala da maternidade, nupcialidade, uniões de facto, divórcios e novas apresentações de famílias: famílias de três elementos, de habitat individual e de monoparentalidade.

A investigadora, associa as descobertas e os avanços tecnológicos e científicos efectuados a partir do último terço do século XIX à transformação que o papel da mulher e por arrasto a situação de maternidade,. Alterações na divisão do trabalho e do poder entre os sexos, a diminuição da mortalidade, permitindo através do uso de anticoncepcionais, um maior controlo da natalidade e diminuindo consideravelmente a parte ocupada pela gestação e amamentação no ciclo de vida das mulheres.

As inovações tecnológicas foram determinantes na reviravolta da situação das mulheres fazendo com que elas deixassem de ocupar somente o espaço do lar, passando a ter actividades fora dele, quer porque ficaram com mais disponibilidade de tempo, quer porque o mercado de trabalho se alargou e se transformou, permitindo a existência de espaço para o trabalho feminino.

Nas três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial registou-se, nos países capitalistas desenvolvidos, um forte crescimento económico. A par do crescimento económico foi crescendo, nestes países, embora de formas desiguais, o chamado Estado Social. Este assumia a forma de Estado Providência procurando dar aos cidadãos bem-estar e segurança. Nadine Lefaucheur fala-nos das mudanças ao nível da tipologia das habitações, do melhoramento e da mecanização do trabalho doméstico, da importância do capital intelectual versus o muscular, da colectivização do trabalho de reprodução e da criação do estado “Welfare” através de sistemas de protecção social.

Maternidade, Família, Estado

Nadine Lefaucheur

História das Mulheres no Ocidente, vol.5, pp.479-503

Bibliografia

 LEFAUCHEUR, Nadine, “Maternidade, Família, Estado”, in DUBY, Georges, PERROT, Michelle (dir.), História das Mulheres no ocidente, vol.5, THÉBAUD, Francoise (dir.), O Século XX, Porto, Ed. Afrontamento, 1995, pp. 479-503

Formação em Maternidade, família e Estado

http://www.bluets.org/article.php3?id_article=131

 http://www.ined.fr/rencontres/seminaires/famille/151099.htm

 http://www.lsp.umontreal.ca/revue_redact_FR.html

 p://www.ined.fr/rencontres/seminaires/famille/151099.htm

domingo, 7 de abril de 2024

O Tempo Dos Mais Vividos

O tempo terreno funciona como uma enorme e assustadora borracha que tudo apaga. Apaga o passado antes da morte física. Somos mortos antes do coração, das vias respiratórias e do cérebro pararem. É uma morte precoce.

Mesmo para quem viveu determinado acontecimento e a memória do mesmo permaneça actualizada e pormenorizada, os que o rodeiam deixam de o poder validar, ou porque deixam de existir neste mundo ou porque passamos a estar isolados e por isso impossibilitados de partilhar.

Segundo Eckhart Tolle, o agora, deve ser o nosso foco e é nele que devemos permanecer a maior parte da nossa linha temporal. Devemos remeter o passado e o futuro para o seu lugar próprio, segundo ou terceiro plano e mantermo-nos sempre que possível no agora.

As memórias assaltam-nos a mente e provocam-nos sensações muitas vezes e sobretudo em idades mais vividas, de falta de reconhecimento. 
Os mais vividos ou por serem afastados precocemente e muitas vezes com o argumento de deverem dar espaço aos menos vividos, como se uns, se eliminassem ou se substituíssem, em vez de se complementarem, ou porque se afastam por opcão, doença ou de forma derradeira pela morte, deixam de ter espaço para a partilha de memórias. 

A forma como a sociedade em geral e as organizações em particular, olham e valorizam o conhecimento e o saber construído através da experiência e da vivência da linha de tempo inerente a cada ser humano, tornou-se um obstáculo ao desenvolvimento humano.

Quando falamos de aspectos relacionados com a vida familiar, os mais vividos, vão indo para o além, e vão deixando de poder partilhar emoções, memórias, imagens, episódios, experiências e saberes. Fica um vazio, assustador, quando não consciencializado.

A criatividade e a inovação não passam de usurpações de algo já pensado e concretizado por alguém apagado com a tal borracha, que sem piedade e sem qualquer respeito e dignidade pela existência, tudo julga ter o poder de apagar, remetendo para a linha do esquecimento do tempo, o ser, muitas vezes ainda em carne, mas atirado para a invisibilidade e inexistência ou por conveniência de alguns, ou simplesmente pelo natural fluir do ciclo de vida.

O Ego, reclama-nos a toda a hora a necessidade de reconhecimento pelo facto de estarmos vivos e termos um passado vivido a reclamar. 

Enquanto vivos e manifestando a nossa existência através de várias formas, na família, no mundo do trabalho, nos grupos a que vamos pertencendo ao longo da nossa linha de vida, vamos sentindo esta necessidade de que nos vejam, olhem, que nos reconheçam como seres criativos.

Difícil é comunicar ao nosso ego, quando está na hora de ele se afastar da sua personagem de profissional, de familiar, de amizades, dos grupos de pertença com que ao longo do seu percurso de vida se identificou, que deverá viver o agora em vez do passado, potencializando-o de forma consciente e satisfatória para o seu ser.

Graves problemas de saúde mental, frequentemente atingem as pessoas que viveram mais tempo, quando sentem que a sociedade em geral não respeita e reconhece o esforço de tantos dias, meses e anos de vida.

O ser humano, foi educado e criado para trabalhar, ser um bom trabalhador, quando se vê privado do que julga ser a sua razão de estar vivo, e tendo consciência de que a borracha que tudo apaga, sem ele estar preparado para isso, está a perseguido, sente-se com medo, ameaçado e assustado por poder ser apagado, eliminada, antes do tempo que julga ainda ter para viver.

É na verdade uma morte prematura para quem não foi ensinado, ou aprendeu a viver o agora, desapegando-se da sua personagem de criador de um passado que tem impacto no presente, mas sem ter a referência do passado. Tudo não passa de uma luta de egos!...

 Ana Ferreira Martins

Assistente Social

Supervisora em Serviço Social

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Serviço Social clínico/Assistente Social Clínico



 

O que faz a/o Assistente Social Clínico?

Uma/a assistente social clínico é um profissional que ajuda indivíduos, famílias e grupos a lidar com questões de saúde mental e emocionais. Trabalha com pessoas de todas as idades e origens e oferece uma variedade de serviços, incluindo aconselhamento, terapia e um plano de cuidados. A/O assistente social clínico ajuda os clientes a entender as causas de seus problemas, desenvolver habilidades para enfrentar e encontrar soluções para seus desafios. 

Podem trabalhar em clínicas privadas, hospitais, organismos públicos e governamentais e organizações não governamentais. (IPSS´s, ONG´s)

O que faz a/o Assistente Social Clínico?

consultasocialconsultoria@gmail.com

As/Os Assistentes Sociais Clínicos são responsáveis por fornecer serviços e suporte de saúde mental especializados a indivíduos, grupos e famílias a fim de melhorar seu bem-estar social e emocional. Trabalham com clientes para avaliar suas necessidades e desenvolver intervenções apropriadas, usando uma variedade de abordagens terapêuticas baseadas em evidências. Também fornecem conselhos e suporte em uma variedade de questões, como habitação, benefícios sociais, dificuldades financeiras, relacionamentos, parentalidade e emprego. 

As/Os Assistentes Sociais Clínicos possuem fortes habilidades interpessoais e são capazes de manter limites profissionais ao trabalhar com pessoas vulneráveis. Elaboram relatórios precisos e trabalham, quando necessário em colaboração com outros profissionais.

Assistente Social Clínico Objetivo da função

O objetivo de uma/um assistente social clínico é fornecer suporte social e emocional a indivíduos, famílias, casais e grupos para promover o bem-estar, a resiliência e a melhoria da qualidade de vida. 

As/Os Assistentes Sociais Clínicos avaliam os fatores sociais, psicológicos e biológicos que influenciam a saúde e o funcionamento de um indivíduo e desenvolvem um plano terapêutico para facilitar a recuperação e melhorar o bem-estar.  Proporcionam suporte emocional, intervenção em crises e mecanismos de defesa para ajudar as pessoas a lidar com eventos difíceis da vida ou problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade e abuso de substâncias. 

Trabalham com famílias para ajudá-las a identificar e resolver problemas que possam estar impedindo-os de alcançar um ambiente saudável e estável. As/Os Assistentes Sociais Clínicos colaboram com outros profissionais para garantir uma abordagem holística ao aconselhamento e acompanhamento da situação problema.

Funções da/o assistente Social Clínico 

A/O Assistente Social Clínico é um profissional que fornece suporte e orientação a indivíduos, casais e famílias que enfrentam situações difíceis e desafiadoras na vida, como problemas de saúde mental, abuso de substâncias, deficiência, problemas de relacionamento e outras questões sociais. 

As/os Assistentes Sociais Clínicos usam uma variedade de estratégias terapêuticas e práticas para ajudar as pessoas a desenvolver as habilidades e recursos necessários para lidar melhor com sua situação e alcançar seus objetivos.

Assistente Social Clínico Funções

·        Fornecer aconselhamento e psicoterapia a indivíduos, casais e famílias

·        Avaliar e diagnosticar problemas de saúde mental

·        Desenvolver planos de tratamento e encaminhar para outros serviços quando necessário

·        Advogar pelos clientes com outros profissionais de saúde, escolas e serviços comunitários

·        Manter a anamnese social actualizada e fornecer relatórios regulares

·        Apoiar os clientes na compreensão de seus sentimentos, comportamentos e escolhas de vida

·        Manter limites profissionais e padrões éticos

Assistente Social Clínico Requisitos

·        Formação académica em serviço social e outras específicas em serviço social clinico ou equivalentes

·        Conhecimento da legislação, políticas e procedimentos relevantes

·        Capacidade de desenvolver e manter relacionamentos de trabalho eficazes

·        Capacidade de analisar problemas complexos e tomar decisões bem informadas

·        Excelentes habilidades de comunicação escrita e verbal

Assistente Social Clínico Competências

·        Capacidade de compreender e empatizar com os clientes

·        Capacidade de avaliar os clientes e fornecer terapia apropriada

·        Conhecimento da legislação e regulamentação relevante

·        Capacidade de manter limites profissionais e confidencialidade

Assistente Social Clínico Traços Pessoais

·        Empatia

·        Excelentes habilidades de comunicação

·        Capacidade de construir relacionamentos

·        Habilidades organizacionais

·        Capacidade de lidar com informações sensíveis


consultasocialconsultoria@gmail.com

segunda-feira, 6 de março de 2023

Fenómeno da aculturação em relação às questões de género



Fenómeno da aculturação em relação às questões de género



Trata-se de uma breve abordagem aos movimentos que algumas mulheres em alguns países ocidentais têm vindo a levar a cabo. Logo seguida de um comentário sobre o fenómeno da exclusão social numa perspectiva de género e no final farei uma breve análise do que entendo por aculturação no que se refere à problemática de género nas sociedades ocidentais.

A forma como as mulheres mostravam e expressavam a sua revolta face á marginalização e discriminação a que estavam sujeitas, de direito e de facto, a sua situação na família, no trabalho, na política e, em geral, na sociedade deu-se o nome de movimento feminista.

Há cerca de100 anos atrás, a luta de algumas mulheres menos conformadas com a sua sorte, dirigiam as suas, reivindicações sobretudo, para a elaboração de leis que pusessem termo às discriminações do foro jurídico e que assegurassem ás mulheres os direitos que lhe eram vedados (direito ao voto, á autonomia na celebração de contratos, á educação, acesso ao trabalho, á igualdade de remuneração, etc.).

A este tipo de atitude baseada em reivindicações de direitos, seguiu-se uma outra que apontava essencialmente para a necessidade de criar condições de igualdade de oportunidades aos dois sexos. Pretende-se com isto dar um passo para uma sociedade paritária, pretende-se pôr definitivamente em causa a neutralidade ou ausência de políticas em relação ao género, ou seja deixa-se de ver no masculino o modelo único que engloba em si os dois géneros. O masculino e o feminino.

Trata-se assim de fazer com que as políticas e directrizes governamentais incluem de forma consistente e consequente, a perspectiva de igualdade de género em todas as políticas correntes, no entendimento de que estas sempre se dirigem a pessoas concretas, isto é, a mulheres e a homens, e não a entes abstractos.

Esta abordagem facilita não só a questão da igualdade de género mas também a concepção de democracia no seu sentido de representatividade de todas as cidadãs e de todos os cidadãos que compõem a sociedade.



Democracia plena e participativa

Como é do conhecimento comum, existe hoje em dia uma crise da democracia política, tal como esta vem sendo construída e praticada nos países capitalistas de economia avançada.

Vários indicadores, como o absentismo elevado em actos eleitorais e a fraca participação dos (as) cidadãos (as) na vida política, até ao cepticismo e desconfiança com que hoje é olhada a classe políticas par disto assiste-se ao enfraquecimento do poder dos políticos face ao poder dos media e/ou poder económico, cada vez mais globalizados.

Neste contexto de desinteresse generalizado, é cada vez mais reprovável que uma das metades (metade feminina) continue, na prática, arredada do exercício do direito e do dever da cidadania, que se traduz na representação e participação no processo de decisão política.

A marginalização ou exclusão das mulheres da vida política corrói as bases da própria democracia. Em primeiro lugar, porque, prescinde, quase sem consciência, da participação de metade da sociedade, a sua população feminina, desprezando, assim, parte considerável do conjunto de recursos humanos.

Um grupo de trabalho criado pelo conselho da Europa considerou.

“ É bem evidente que a vontade política necessária à perspectiva integrada da igualdade de género não se obterá sem uma participação real das mulheres na vida pública, e nas tomadas de decisão. É pois essencial que um grande número de mulheres encontrem o seu lugar nessas instâncias, que as suas vozes se façam ouvir em cada decisão, afim de assegurarem que os seus diferentes valores, interesses e modos de vida sejam devidamente tidos em conta”

consultoria em serviço social

Outro assunto que não deixaria de fazer referência nesta dissertação é à do fenómeno de Feminização da pobreza.

Dentro dos grupos afectados pela exclusão social e pela pobreza, uma grande parte é precisamente constituída pelas mulheres.

Existe uma relação especial entre mulheres e pobreza, isto é, que para além de mecanismos mais gerais que afectam igualmente os homens e as mulheres, há mecanismos mais específicos que levam as mulheres à pobreza que as tornam mais vulneráveis. Manifestações destes mecanismos específicos são observáveis nas áreas do emprego, da educação/ formação profissional, da família, da saúde, tal como da habitação.

O termo aculturação pode-se de certo modo aplicar a este fenómeno do género, na medida em que os domínios do feminino e do masculino que de geração em geração estavam abstractamente bem definidos, “ o homem na praça, a mulher na casa”. Nos nossos dias existe uma zona bastante alargada em que se verifica nos dois géneros aculturação em áreas anteriormente pertencentes unicamente a cada um deles.

O espaço privado, que era visto essencialmente como um espaço ocupado pelo feminino torna-se cada vez mais dividido e partilhado por ambos os sexos. Assim como o espaço público que durante séculos foi ocupado pelos homens está progressivamente ao longo das últimas décadas vindo a ser ocupado pelo sexo feminino.

Digamos que o termo aculturação tem a ver com esta situação de transferências de espaços, público e privado, e na sua distribuição e redistribuirão entre o feminino e o masculino.

As lutas pela concretização de ideais são sempre difíceis e por vezes violentas. As mulheres e os homens ocidentais entraram no séc. XXI com contextos e comportamentos sociais em profunda transformação. Únicos no decorrer da evolução do conhecimento e da prática humana.


Há que continuar a lutar por mantê-los e dar-lhes firmeza e consistência, pois dessa luta depende o ideal democrático que nos move e irá condicionar a vida das nossas filhas e filhos.


Ana Ferreira Martins


Intervenção realizada com base num artigo escrito por Maria de Lurdes Pintassilgo no âmbito de um grupo de trabalho criado no Concelho da Europa.


consultoria em serviço social

https://draft.blogger.com/blog/post/edit/4312307639812661879/7423599834756934129

terça-feira, 21 de junho de 2022

O Impacto das desigualdades na vida das mulheres



Em Portugal, como em qualquer parte do mundo, com maior ou menor impacto e visibilidade, as desigualdades de género determinam a qualidade de vida das famílias em geral e das monoparentais dominantemente constituídas por mulheres com filhos a cargo, em particular.

As desigualdades de género manifestam-se, simultaneamente, através do trabalho, da classe social, da cultura, da etnia, da idade, da raça. Nunca ou raramente uma das variáveis se apresenta sozinha. Tratam-se, sempre de causas multidimensionais e sectoriais com uma longa pré-existência no contexto das sociedades humanas.

As consequências menos positivas destas desigualdades, atingem particularmente as mulheres. Para tal contribui a especificidade da sua participação na vida familiar, económica e social: auferem em média salários mais baixos, são mais afectadas pelo desemprego, têm menos protecção social devido a uma participação mais irregular na actividade económica. Por outro lado, com a maior esperança de vida, comparativamente aos homens, as idosas encontram-se muitas vezes em situações precárias, quer do ponto de vista dos recursos económicos, quer pelo isolamento em que vivem (CIDM, Portugal, cit. in Igualdade género, 2003). Actualmente as leis europeias contemplam directrizes especificas no que diz respeito às mulheres de classes etárias mais avançadas. Pois é aí que o impacto das discriminações e desigualdades ao longo da vida, mais se fazem sentir.

Importante referir que dados recentes classificam as mulheres portuguesas como as que despendem maior tempo de trabalho fora de casa, mais próxima da percentagem dos homens, por comparação à maioria das mulheres dos países da comunidade europeia.

Estas questões estão intimamente relacionadas com a ineficácia e em algumas situações inexistência de políticas sociais eficazes no que respeita à conciliação entre a vida profissional e familiar em geral e em particular na vida das mulheres, com particular incidência nas mães. Outro grupo particularmente afectado por situações de pobreza, o das famílias monoparentais de que são responsáveis, maioritariamente, as mulheres. Dados recentes, referem que no total, 43.3% famílias monoparentais encontram-se em risco de pobreza ou exclusão social.

À semelhança da generalidade dos países, também em Portugal se verifica o fenómeno da feminização da pobreza. Se não se dispõe de indicadores directos sobre a incidência específica da pobreza sobre as mulheres, existem, contudo, indicadores que, indirectamente, permitem concluir pela desigual partilha dos recursos económicos entre homens e mulheres, e pela maior vulnerabilidade destas a situações que podem conduzir à pobreza.

As mulheres, continuam a ser, do ponto de vista social, um dos grupos mais vulneráveis

As mulheres enfrentam um maior risco de pobreza. Ao longo das suas vidas, recebem salários inferiores aos homens, têm uma maior probabilidade de ter empregos mal pagos e precários e interrompem temporariamente as suas carreiras para assumir a responsabilidade de cuidar dos filhos ou de outras pessoas.

 Quando se fala de crianças e tendo em conta que estas compõem os agregados familiares e que como também já falamos anteriormente as tarefas ligadas à maternidade e aos filhos continuam dominantemente a fazer parte do quotidiano das mulheres.

Estas situações de desigualdade que ocorrem ao longo da vida acabam por resultar em disparidades salariais, em dependência económica e num maior risco de pobreza, que são particularmente visíveis numa idade mais avançada, por terem pensões menos robustas financeiramente do que os seus pares homens. Estes factos são particularmente preocupantes, na medida em que as mulheres constituem a maioria da população mais idosa da EU

Corrigir a disparidade entre homens e mulheres em matéria de pensões instou Estados-Membros a tomar medidas para resolver a maior prevalência de trabalho a tempo parcial e a progressão salarial relativamente lenta entre as mulheres.

O envelhecimento da população europeia no geral e em particular o das mulheres, tem feito com que a EU tenha feito recomendações aos estados membros no sentido de trabalharem na redução destas desigualdades de género.

 Situações de pobreza e o seu efeito reprodutor "ciclos de pobreza"


A pobreza conduz milhões de mulheres para o caminho da exclusão e, em última análise, para a situação de ser ou estar sem abrigo. Trata-se de um fenómeno com contornos específicos no que se relaciona com as questões de género.

A relação de género formada por homens e mulheres é norteada pelas diferenças biológicas, geralmente transformadas em desigualdades que tornam o ser mulher vulnerável à exclusão social e à pobreza.

Pereirinha (2007) definiu o conceito de mulher pobre como sendo transversal a vários domínios. Assim, para além da ausência de recursos económicos, temos múltiplos aspectos do bem-estar que integram especificidades associadas à mulher. Desta forma, encara-se a pobreza como um estado de privação em termos de bem-estar. Assim, as dimensões de bem-estar apresentadas constituem as principais dimensões de privação do bem-estar associado à mulher. Portugal apresenta, no contexto da UE, uma das maiores taxas de actividade feminina. Em termos de profissão, as mulheres desempenham sobretudo funções nos sectores tradicionais do comércio, do alojamento, da restauração e nos serviços sociais e pessoais. Estas actividades registam muitas vezes formas contratuais de vínculo precário, o que no futuro se vem a reflectir nas pensões de reforma.

O mesmo autor refere ainda que apesar de mais escolarizadas do que os homens, as mulheres portuguesas ocupam geralmente posições hierárquicas inferiores relativamente aos homens, auferem menores remunerações e detêm contratos de trabalho menos favoráveis, quer em termos de vínculo como de horário.

Torres (2005), faz alusão ao facto de tanto homem como mulheres contribuírem com os seus ganhos para o rendimento das famílias. Mas existem acentuadas diferenças de rendimento pessoal entre mulheres e homens. Mais de metade das mulheres têm apenas até 375 euros de rendimento, enquanto aproximadamente a mesma proporção de homens se situa no escalão de rendimento imediatamente acima (376 a 750 euros). O estudo apenas refere existir convergência de rendimentos entre homens e mulheres quando ambos possuem um diploma de ensino médio ou superior.

Segundo a mesma autora, os fracos rendimentos são também outro dos problemas das famílias mais numerosas (com 4 ou mais filhos) e, no outro extremo, das famílias monoparentais. Estas são resultantes, na maior parte dos casos, de situações impostas por abandonos ou separações unilaterais que deixam as mulheres com filhos com graves problemas financeiros.

Além do esforço financeiro suplementar a que as famílias são obrigadas na procura de soluções sócio-educativas e de guarda, privadas, surgem também situações duvidosas, em que a guarda das crianças, embora esteja a cargo das mães, estas, ao mesmo tempo, trabalham, o que nos leva a pensar que muitas delas ficarão em casa sozinhas ou com irmã(o)s mais velho(a)s, maioritariamente irmãs.

“...depois quando ela nasceu eu tomava conta dela, eles iam sair a algum lado, eles tinham sempre onde ir e eu ficava com a filha deles, mais velha da parte do meu padrasto, entretanto depois nasceu a mais pequenina já foi aqui na barraca sei que eu tomei conta delas sempre, eu tratava delas,” (Paula 2,solteira, 25 anos, duas filhas)

Outra reflexão preocupante a propósito das redes de inter ajuda familiar fundamenta-se no facto de se verificar que são as pessoas com mais baixos rendimentos, e que por isso poderiam usufruir mais dos possíveis apoios familiares, que referem que os mesmos são inexistentes ou muito precários (Pereinha, 2007).

O mesmo autor refere que os cuidados das crianças e dos dependentes, idosos ou adultos, continuam a cargo das mulheres e, não havendo respostas públicas suficientes e capazes, são estas que têm que se desdobrar ou mesmo abdicar das suas profissões, para cuidar de quem precisa. Esta situação torna-se mais visível em mulheres que auferem baixos rendimentos e que, portanto, não podem recorrer a apoios privados.

Os estudos realizados mostram-nos que a situação das crianças, continua a ser preocupante, pela conjunção das muito insuficientes taxas de cobertura de equipamentos de apoio à infância, sobretudo até aos 3 anos com as altíssimas percentagens de actividade feminina a tempo completo (Torres, 2005).

É deste conjunto de circunstâncias que resultará que quem menos tem, e quem mais precisa, menos ajuda familiar tem. Os baixos rendimentos dos agregados domésticos e a sua baixa escolaridade média, não deixam de ser também negativamente reveladores. Segundo Torres (2005), é clara a correlação positiva que se estabelece entre instrução e rendimento. Com efeito, quanto maior é o nível de instrução maior é, de forma contínua, o rendimento pessoal. As mulheres domésticas são as menos instruídas e, sobretudo, as mais pobres, sendo ainda a contribuição financeira das mulheres para os rendimentos do grupo doméstico a regra na esmagadora maioria dos agregados inquiridos (Torres, 2005).

Estes agregados são particularmente vulneráveis à pobreza, uma vez que muitos deles dependem exclusivamente do rendimento da mulher.

O facto de nas famílias economicamente mais carenciadas, as redes informais de entreajuda familiar serem menos intensas, dificulta ainda mais a vida das mulheres. Nestas famílias as mulheres também são mais penalizadas pelas assimetrias de poder na relação conjugal, que se traduz, no limite e num número considerável de casos, em violência doméstica (Pereirinha, 2007).

Por tradicionalmente caber às mulheres, para além do seu trabalho fora de casa (profissional), o cuidado dos filhos e das tarefas domésticas, sobretudo nas famílias de recursos escassos, esta situação tende a penalizar mais fortemente a mulher, uma vez que estes agregados não têm meios para contratar serviços de apoio, de outras mulheres (Pereirinha, 2007). Neste caso pode concluir-se que as mulheres mais pobres substituem as mais abastadas nas tarefas domésticas, o que perpetua as desigualdades dentro e fora do mesmo sexo.

São as mulheres que, em situações de sobrecarga, asseguram simultaneamente trabalho pago e não pago, o que se traduz em cansaço e stress associado a esse tipo de relação entre vida familiar e vida profissional. No âmbito do trabalho não pago, as mulheres acumulam as tarefas domésticas, os cuidados com os idosos dependentes e com as crianças. Quanto às mulheres que trabalham no exterior, elas apenas podem diminuir a sua participação nas tarefas da casa diminuindo o tempo a elas dedicado (Torres, 2005).

Pereirinha (2007) acrescenta o facto de a mulher deter tradicionalmente um cariz mais secundário no seio do casal, o que em famílias com um perfil empobrecido dificulta e aumenta a intensidade dos quotidianos das mulheres, em que o tempo livre é praticamente inexistente, comprometendo a sua qualidade de vida e, necessariamente, a sua saúde. Em contrapartida, ressalta-se o facto de os homens despenderem grande parte do tempo em que não estão a trabalhar em actividades de carácter pessoal e de convívio.

O mesmo autor afirma que um factor agravante da situação de pobreza e de sobrecarga social destas mulheres reside no facto de a oferta de equipamentos públicos de apoio quer para crianças para idosos, não ser em número suficiente e que, tradicionalmente e na generalidade, são as mulheres que se ocupam destes elementos do agregado.

Outro factor a ter em conta é o da crescente monoparentalidade, sendo de salientar que em cerca de 80% das famílias (Censo 2001) o representante é do sexo feminino. Estes agregados são particularmente vulneráveis à pobreza e muitos deles dependem exclusivamente do rendimento da mulher.

As redes familiares, através da sua componente feminina, parecem contribuir pelo menos parcialmente para diminuir o impacto da falta de equipamentos para idosos dependentes, sem prejuízo de um conjunto significativo desses idosos se encontrarem sozinhos nas suas casas, tendendo aí a ser também ajudados por familiares mulheres. Segundo Torres esta situação contraria de forma frontal ideias que tendem a apontar a família como não cuidando dos seus idosos. Aqui se mostra que é fundamentalmente com apoios da família que eles podem contar, sendo residual a percentagem dos idosos dependentes que estão em lares (Torres, 2005).

De um modo geral, e ainda no mesmo estudo se faz referência à posição desfavorável da mulher no mercado de trabalho, na família e na vida social em geral ser mais significativa nos meios desfavorecidos. Esta situação traduz-se necessariamente numa percepção diferenciada das condições de vida e do sentimento de pobreza, por parte deste grupo de mulheres.

Os efeitos da reprodução da pobreza, ou seja, famílias com parcos rendimentos e com muitos filhos, dificilmente encontram respostas adequadas às suas necessidades de protecção, de laços afectivos e de uma educação sócio-cultural a todos os níveis.

Cabral (1991) aponta para uma sobreposição dos universos privado e público nas mulheres, ambos dominados pela família conjugal, os familiares próximos e os vizinhos, contrastando com uma maior diferenciação entre os universos privado e público dos homens.

Ainda segundo o mesmo autor, para que os efeitos da socialização conduzam a uma situação mais equilibrada entre homens e mulheres, não é suficiente que as mulheres tenham acesso ao mercado de trabalho, sendo igualmente necessário um grau de envolvimento técnico e social na vida profissional que, segundo o seu estudo, as mulheres nem sempre manifestam. Faz referência ao descontentamento das mulheres relativamente à desigualdade do sistema de oportunidades e recompensas socio-económicas que “não se traduz numa mobilidade nem num radicalismo político superior ao dos homens, antes pelo contrário”.

Chama a esta atitude um “pessimismo pré-cognitivo”, e/ou um sentimento difuso de injustiça e de impotência, que parecem conjugar-se numa espécie de dialéctica negativa, para gerar uma situação de relativa exclusão, não só perante a vida cívica e política, como perante a própria vida social e económica (Cabral, 1991).

O risco de pobreza varia entre sexos. A maior incidência de baixos rendimentos nas mulheres conduz, em Portugal, à semelhança da generalidade dos países, ao fenómeno de feminização da pobreza. Em 2004, 22% das mulheres estavam em situação de pobreza, contra 20% dos homens, sendo as mulheres a apresentar sistematicamente um risco de pobreza mais elevado desde 1995 (PNAI 2006-2008).

Tendo em conta os resultados do EU-SILC de 2018, as mulheres continuam numa situação de maior vulnerabilidade, apresentando valores mais elevados que a população masculina em todos os indicadores. Em Portugal, 24% das mulheres estão em risco de pobreza ou exclusão social, 18% estão em risco de pobreza monetária, 8,2% vivem em agregados com intensidade laboral muito reduzida e 7.2% estão em privação material severa e são elas também quem mais recebe o rendimento social de inserção (51%).

A disparidade salarial entre homens e mulheres chega aos 18% em Portugal, número que sobe para os 26% nos quadros superiores, e anda nos 4% entre praticantes e aprendizes.

As mulheres que trabalham por conta de outrem têm um rendimento médio mensal de 982,5 euros, enquanto os homens chegam a ganhar 1.215,1 euros.

Segundo o Livro Verde Sobre Política Social Europeia (1993), na UE mais de um quarto das mulheres são chefes de família. No livro podemos ler, “Precisamos de políticas destinadas aos homens e mulheres, que facilitem a combinação entre emprego remunerado e cuidados aos filhos”.

A política da família diz respeito a todas as famílias, e não apenas àquelas que se encontram em dificuldades. Há que encontrar o equilíbrio entre família com necessidades específicas e família na generalidade.

“Há que criar horários de trabalho flexíveis, não só no interesse das entidades empregadoras e possivelmente da criação de empregos, mas também para alcançar um equilíbrio entre a vida familiar e a vida profissional” (Livro Verde Sobre a Política Social Europeia, 2005).

As soluções para os problemas acima expostos, apontam para a urgente necessidade de encontrar um sério compromisso entre a vida familiar e profissional, tendo em conta cada especificidade do agregado familiar.

As políticas salariais deverão ter em conta para trabalho igual, salário igual e não serem discriminatórias no que diz respeito ao género.

Deverão aplicar-se políticas sociais que protejam as famílias com baixos salários ou mesmo inexistência dos mesmos de forma a prevenir discriminação de género, nomeadamente em relação às famílias monoparentais dominantemente geridas por mulheres.

É urgente que se passe dos textos bem-intencionados para a real aplicação das medidas que podem evitar a discriminação entre homens e mulheres, para que tal aconteça a pedagogia comportamental e psicossocial tem que ser realizada nas escolas e na família. As sociedades são vividas e não lidas, o que faz com que seja necessário trabalhar na mudança de atitude e de pensar, no seio das políticas sociais e na aplicação dos princípios universalistas da constituição portuguesa e das directrizes europeias e mesmo internacionais. (ver plano igualdade género) último.

Estes aspectos focados ao longo do texto, residem essencialmente na clara necessidade de para trabalho igual salários iguais, na não discriminação de oportunidades das mulheres assumirem não só cargos de chefia intermédia, mas sobretudo na política, no mundo empresarial e a associativo, cargos de topo, que embora as mulheres sejam em maior número em cargos de chefia, quando se olha para as presidências são sobretudo os homens que lá chegam, mesmo em mundos dominantemente femininos como os da educação e da ação social.

A divisão do trabalho doméstico continua a ser discriminatória colocando horas extraordinárias a mais no quotidiano das mulheres.

Para melhorar o posicionamento da mulher na sociedade, são precisas, políticas sociais, ao nível da educação, do serviço social, das políticas salariais, da cultura e do desporto, entre outras dimensões da vida humana, como a religiosidade e ou a espiritualidade, alinhadas com as situações atrás diagnosticadas, que não se limitem a ficar no papel, mas que tenham um impacto efectivo na vida das sociedades humanas em geral e na vida das mulheres em particular.

MARTINS, Ana Maria Ferreira, As Sem Abrigo de Lisboa – Mulheres Que Sonham Com Uma Casa – Chiado Editora, 2017

TORRES, Anália Cardoso, Silva, Francisco Vieira, Monteiro, Teresa Líbano, Cabritas, Miguel (2005), Homens e Mulheres entre Família e Trabalho, Lisboa.

PEREIRINHA, José António, et.al.(2007) – Género e Pobreza; Impacto e determinantes da Pobreza no Feminino, - CIG - Lisboa

https://www.eapn.pt/documento/577/indicadores-sobre-pobreza-dados-europeus-e-nacionais-outubro-2018